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Desastres Climáticos e as Condições Crônicas Não Transmissíveis no Brasil – um Impacto Subestimado

Por Dr. Ronaldo J. Pineda Wieselberg


Desde o início de novembro de 2021, o estado brasileiro da Bahia tem sido devastado por chuvas torrenciais. Até o momento, mais de 54 mil pessoas perderam suas casas e mais de 600 mil foram afetadas de alguma forma. Em Franco da Rocha, na grande São Paulo, novamente as chuvas fizeram vítimas, com perda de vidas e de moradia.


No entanto, esses desastres não estão isolados na história recente brasileira. No século XXI, tragédias semelhantes aconteceram em 2008 no estado de Santa Catarina, com 135 mortes e mais de um milhão e meio de habitantes afetados. No estado do Rio de Janeiro, em 2011, este considerado o pior desastre climático do Brasil, 918 pessoas perderam a vida e mais de 30 mil perderam suas casas.


Os meteorologistas explicam que o que acontece é extremo e atípico. Normalmente, estas tempestades começam no início da primavera e estendem-se até ao verão e outono, mas nesta situação as tempestades apareceram mais a norte e com maior intensidade. Segundo especialistas da MeteoNorte, pioneira no setor climático na região norte do Brasil, há três fatores que podem estar associados a essas mudanças: depressão subtropical – um tipo específico de evento meteorológico que pode evoluir para tempestade tropical –, La Niña e aquecimento global.


O efeito La Niña no Brasil é conhecido por causar fortes chuvas e aumento das vazões dos rios nas regiões Norte e Nordeste, com seca nas regiões Sul e Sudeste. Isso pode levar a inundações e aumentar o número de desastres climáticos no país.


O aquecimento global leva a um enorme impacto na saúde, não apenas ligado a exposições diretas a desastres naturais, mas também devido a doenças infecciosas – como a leptospirose após enchentes – e ao impacto para pessoas que vivem com condições crônicas não transmissíveis (CCNT), tais como diabetes, hipertensão, obesidade e transtornos mentais.

Quando surgem desastres climáticos, as pessoas que vivem com CCNT têm um impacto não reconhecido em sua morbidade e mortalidade, uma vez que sua condição se deteriora devido à falta de gerenciamento de suas condições.


Estudos estimam que quase 30% das mortes causadas pelos furacões Irma e Maria na região do Caribe (2017) foram causadas por complicações de CCNT. Nos desastres brasileiros, essas mortes muitas vezes não são registradas e sua causa não é clara. Podemos hipotetizar que nesses períodos há falta de registro de CCNT por necessidade mais imediata, mas poucos estudos foram realizados para esclarecer essa questão.


Os principais desafios que surgem dos desastres climáticos são a interrupção dos sistemas de saúde, resultando em acesso limitado a medicamentos essenciais, aconselhamento médico limitado, problemas com suprimentos e cadeias de frio, com grande implicação na administração de insulina para diabetes; instalações médicas destruídas, estradas, internet e falhas de telefone também limitam o acesso das pessoas aos cuidados. As pessoas muitas vezes não têm acesso a opções de alimentos saudáveis, algo que é fundamental para o manejo das CCNT, aumentando a ingestão de alimentos com alto teor de sal, gordura e açúcar e, em seguida, piorando essas CCNT subjacentes.


No Brasil, as pessoas vivem em áreas de risco - morros, encostas, beira-mar ou áreas de inundação - devido à exclusão social, segregação espacial, e essas áreas geralmente são construídas sem planejamento de ruas e espaços públicos, carecendo de serviços essenciais de infraestrutura como água, coleta e descarte de esgoto e lixo.


Após o evento no Rio de Janeiro, foi implementado um sistema de alerta com mensagens SMS e alertas sonoros para informar a população, voluntários foram treinados para lidar com desastres, planos de contingência para articular respostas e mapeamento das áreas suscetíveis. No entanto, não foram desenvolvidas estratégias para retirar as pessoas das áreas de risco ou para lidar com as CCNT.


As principais recomendações para lidar com outros desastres climáticos, além dos implementados no Rio de Janeiro, devem ser:


1. Garantir o acesso a medicamentos, incluindo o armazenamento de medicamentos usados ​​com frequência e o preenchimento de uma lista de medicamentos alternativos que as pessoas com CCNT podem usar se não puderem cumprir medicação suas prescrições habituais;

2. Comunicar-se efetivamente com pessoas que vivem com CCNT antes do desastre para fornecer informações sobre como obter assistência médica e suprimentos, bem como educá-los sobre maneiras de autogerenciar suas CCNT;

3. Atender às necessidades de saúde mental de todas as pessoas que sofrem um desastre natural;

4. Desenvolver sistemas robustos de vigilância de doenças para identificar necessidades regionais específicas das pessoas que vivem nessas áreas;

5. Prevenir as mudanças climáticas investindo em estratégias que mitiguem os efeitos do aquecimento global;

6. Desenvolver políticas de urbanização para fornecer moradias seguras para pessoas que vivem em áreas de risco.


A mudança climática é uma ameaça real para as pessoas que vivem com CNT e desenvolver estratégias específicas para lidar com o manejo destas condições de saúde após desastres climáticos é essencial em um país afetado de forma repetida por essas condições.


Referências


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