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Diabetes tipo 1 reduz em 33 anos a expectativa de vida no Brasil

Estudo inédito reforça a importância de programas de saúde e políticas públicas voltadas para a capacitação de pessoas com diabetes e profissionais de saúde


Uma das condições crônicas não transmissíveis (CCNTs) mais incidentes no mundo, o diabetes reduz em média 33 anos de vida de uma pessoa diagnosticada com o tipo 1 aos 10 anos de idade. Os dados são do estudo T1D Index, liderado pela Juvenile Diabetes Research Foundation (JDRF) e divulgado na tarde desta segunda-feira, 22/08, durante evento on-line promovido pela ADJ Diabetes Brasil. O estudo T1D Index traz dados globais sobre o diabetes tipo 1 que serão lançados oficialmente no dia 14 de setembro junto com a publicação completa do estudo na The Lancet. Em parceria com a ADJ, a JDRF conseguiu uma exceção para antecipar os achados referentes ao Brasil, especialmente por serem resultados que chamam a atenção.


De acordo com o cientista de dados sênior da JDRF, Dr. Fei Wang, que apresentou o estudo durante o evento, mais de 200 mil pessoas com diabetes tipo 1 estariam vivas hoje se o cenário fosse outro, sem a redução da expectativa de vida dessa população. Ele completa, “esperamos que esses dados ajudem o Brasil na conscientização sobre diabetes tipo 1, para a condução de ações que previnam complicações e mortes prematuras nessa população”.


Ainda na abertura, o Sr. Lucas Galastri, presidente da ADJ Diabetes Brasil, destacou que o Brasil é o 3º país com maior número de pessoas com diabetes tipo 1 e disse: “é importante que neste momento todos tenham noção da gravidade da condição”. Enfatizou que há pessoas que ainda não têm acesso aos medicamentos, outras que, mesmo com acesso, não têm o manejo adequado, e existem pessoas que nem sabem que têm a condição. “A união das instituições dos diferentes setores e das pessoas é fundamental para avançarmos na pauta de políticas públicas de atenção à pessoa com diabetes no país”, declarou.


Outro estudo, liderado pela Dra. Marília Brito Gomes, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), foi citado durante o evento, indicando que mesmo entre jovens de 13 a 19 anos de idade, 31% já apresentam pelo menos uma complicação associada ao diabetes tipo 1, como retinopatia ou nefropatia. Segundo a pesquisadora, mais de 30% desses indivíduos estão com hemoglobina acima de 9%, o que aumenta o risco de complicações e reduz a qualidade de vida. Para ela, “uma vez que o sistema de saúde brasileiro já oferece tratamento integral de saúde, então, a falha pode estar no processo educacional. Muitas vezes, a pessoa com diabetes recebe uma prescrição médica e não entende por que tem que fazer tudo o que é orientado”.

Empoderar as pessoas com diabetes desde o diagnóstico para que aprendam a cuidar da própria saúde é um dos caminhos para mudar o prognóstico atual. No entanto, “implantar o processo educacional em diabetes e avaliar se ele está sendo adequado é um trabalho a longo prazo que requer a conjunção de todos os serviços especializados que trabalham com diabetes tipo 1”, declarou Dra. Gomes. O presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), Dr. Levimar Rocha Araújo, concordou sobre a importância da educação em diabetes e acrescentou que “a maior prioridade é reduzir a burocracia para acesso aos medicamentos, e educar o profissional de saúde que está na linha de frente para que entenda que a pessoa com diabetes tipo 1 não pode voltar para a casa sem o básico, que é a insulina e a monitorização”.

Ainda sobre os desafios no tratamento do diabetes tipo 1, o Sr. Elton Chaves, assessor técnico do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (CONASEMS), confirmou que são diversos e citou a falta de um prontuário eletrônico, que permita acompanhar o histórico dos indivíduos em todos os serviços de saúde por onde passa. Apresentou, ainda, algumas iniciativas desenvolvidas para melhorar a atenção às pessoas com diabetes nas 5.570 secretarias municipais de saúde do país, entre elas cursos para preparar os gestores, gerentes, equipes de saúde, agentes comunitários e multidisciplinares e ferramentas online de educação, como o Mais Conasems e o Glica Melito. Este último, com módulos específicos para capacitar profissionais de saúde, e outros para pessoas com diabetes e familiares, sobre diabetes tipo 1. “O desafio é enorme, por isso não dá para fazer sozinho, precisamos de parcerias com as instituições, sociedade civil organizada e indústria farmacêutica para engajar pessoas com diabetes e profissionais de saúde”, disse Chaves.


Por sua vez, o presidente do Instituto da Criança com Diabetes do Rio Grande do Sul (ICD-RS), Dr. Balduino Tschiedel, defendeu que, além de educar pessoas com diabetes e profissionais de saúde, é preciso “investir em centros especializados de atenção secundária e terciária em diabetes tipo 1. Cada estado deveria ter pelo menos um”. Ele citou o exemplo do próprio ICD-RS, que recebe subsídios do SUS e atende cerca de 4.300 pessoas prioritariamente com diabetes tipo 1, “um terço da demanda do estado do RS. Com a atenção especial dentro do Instituto, ajudamos a diminuir em 94% a internação hospitalar plena”.


Além dos pontos apresentados na primeira metade do evento, Dr. Mark Barone, coordenador do FórumDCNTs e vice-presidente da Federação Internacional de Diabetes (IDF), destacou que, apesar de o Brasil possuir um sistema público de saúde referência no mundo inteiro e ter recentemente incorporado novos medicamentos, como os análogos de insulina de ação rápida, em 2017, e análogos de ação prolongada, em 2019, “infelizmente eles não chegam à grande parte das pessoas que precisam, o que seria muito importante para melhorar o cenário do diabetes tipo 1 no país”. Os motivos destacados foram a não distribuição ampla dos análogos de ação rápida através das UBSs, estando disponíveis apenas em farmácias de alto custo, consequentemente vencem e são descartados, e a não aquisição pelo Ministério da Saúde até hoje dos análogos de ação prolongada.


Para a deputada federal Carmen Zanotto, é urgente a implementação da Lei nº 13.895, que institui a Política Nacional de Prevenção do Diabetes e de Assistência Integral à Pessoa com Diabetes. Aprovada em 30 de outubro de 2019, a lei prevê a realização de campanhas de divulgação e conscientização sobre o diabetes e suas complicações, além de destacar a importância da monitorização e controle da glicemia. “No entanto, a pandemia atrasou a implementação dessa lei, e agora ela se tornou emergencial”, disse a deputada Zanotto, que é enfermeira e preside atualmente a Frente Parlamentar Mista da Saúde. Segundo a deputada, “os serviços de saúde precisam priorizar o cuidado integral da pessoa com diabetes”. Outros dois pontos de atenção citados pela parlamentar são a falta de médicos especializados em diabetes em diversas cidades brasileiras, e de ações direcionadas a jovens com diabetes tipo 1 e seus familiares durante uma fase desafiadora da vida, a adolescência.

No fechamento do evento, a coordenadora de Políticas Públicas e Advocacy da SBD, Dra. Karla Melo, alertou que a educação em diabetes deve ser prioritariamente dirigida às pessoas com diabetes e familiares, visto que a maior parte do tempo o tratamento do diabetes tipo 1 é autocuidado ou autogerenciamento. Ao concluir, o Dr. Barone expressou que “existem recursos atualizados à disposição para avançarmos na educação em diabetes no país, como o como o Glica Melito apresentado pelo CONASEMS, e o programa KIDs para famílias e escolas com crianças com diabetes”. E finalizou dizendo que “a grande pergunta é como fazer para que essas capacitações e materiais de qualidade sejam definitivamente incorporados à rotina de formação e atualização dos trabalhadores da saúde, famílias e escolas de todo o Brasil”.


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